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A sombra

             A cada pessoa que avistava na rua, cumprimentava: “Bom dia!”

            Seguia as semanas assim. Observando, na maioria das vezes, as pessoas em redor do parque onde costumava correr todas as manhãs. Também ponto de encontro com a maioria de seus clientes. Sua última encomenda exigia um pouco mais de esforço de sua parte. Mas valeria o sacrifício. Gostava de desafios, dificuldades, os riscos, a adrenalina, enfim, de tudo que envolvesse o trabalho a ser feito.

            Havia, na maioria das vezes, um padrão a ser seguido. Entrava, rendia, atirava, livrava-se do corpo e retornava à sua cama macia e por fazer. Porém, dessa vez, a frieza em suas veias teria que dilatar-se. O alvo: uma peça valiosa do comando do tráfico do morro vizinho ao seu bairro chique. Até aí tudo certo, não gostava 'dessa gente' mesmo. O fato é que esse futuro presunto era 'maneta', segundo seus termos. Não era certo matar alguém que mal pode se defender sozinho. Além da dificuldade extra: se não pode se defender sozinho, há quem o faça por ele.

            A loja de seu primo foi visitada, dessa vez, com certo receio de que algo desse errado.  Equipamento renovado, munição extra, todas as possibilidades analisadas e compensadas com armamento pesado. Preparava-se para uma guerra. Das maiores que lutaria.

            Terminada a visita ao parente não muito estimado, seguiu até seu esconderijo, o qual tinha na porta de entrada o carinhoso aviso: “cuidado, armas perigosas”. Essa pequena casa abrigava cerca de 4 quartos, para as visitas, uma gigantesca, mas aconchegante sala e os detalhes do tipo cozinha, jardim, piscina, etc.  Por essas e outras é que gostava tanto de seu trabalho. Ah, ia esquecendo, as visitas geralmente eram clientes que vinham de muito longe, como norte, nordeste do país.

            Devidamente apresentado, sigamos à ação de Marcos.

            No  mesmo dia em que havia equipado-se com o que há de melhor no mercado negro de armas, 'Marcos Bala', como era chamado pelos mais chegados, exercitou-se e descansou até o amanhecer.

“Vamos lá” - soltou em voz baixa. O suficiente para lhe dar um dos maiores picos de adrenalina do dia. Uma pequena prévia do que estava por vir.

            Entrou em sua camionete de trabalho, marcada por conflitos passados, e seguiu até onde faria a emboscada: a entrada do morro. Passadas horas entediantes, Marcos avista quem não queria: o cliente da vez. “Mas que merda ele acha que tá fazendo?” - pensou em voz alta. Ao perceber que não estava sozinho mesmo nessa, resolveu ligar para o 'idiota' que poria tudo a perder. Sem sucesso, resolveu seguir com o plano, ele que se danasse.

            Veste a face com o capuz improvisado de meia. Em punho, sua arma da sorte: pistola com silenciador. Encaminha o carro até o local que planejara como seguro e sai. Em meio às ladeiras, Marcos ameaça vários moradores até chegar ao destino. Quando chega, atira em todos os seguranças do presunto. Não sai ileso como gostaria, uma bala invade sua clavícula. “Tô ferrado”, pensa. Sabe que não há muito tempo, pois, além de perder muito sangue, o sujeito que receberia a bala de ouro chamaria, claro, reforços.

            Agiu com a impulsividade, que acreditava ter herdado de sua mãe, e atirou 3 vezes na direção do 'poderoso chefão'  do morro. Acertou duas: cabeça e tórax. Checou a respiração, aliás, a ausência dela.. Tudo de acordo. O desafio da vez era escapar daquele ninho de serpentes e chegar em casa. Para conseguir forças e vencer o ferimento, imaginou a cama aconchegante que o esperava.

            Antes de dar os primeiros passos para o conflito pesado, agarrou com toda sua confiança a AR15 que carregava na maleta ao lado do corpo, como sempre. Sentia-se um empresário quando saía para 'caçar'. Novo modelo em punho, mais uma maleta deixada, porta de saída  ultrapassada. As primeiras duas ladeiras seguidas com certa segurança. Mas Bala supunha que silêncio em excesso é sinal de perigo. E estava certo. Ao adentrar na quarta descida, mais ou menos, seu nível de insegurança aumentou, bem como o de adrenalina.

            Deparou-se com um encapuzado muito bem armado. Não exitou. Enquanto a munição teimava a sair da metralhadora, suas mãos suavam cada vez mais e o tremor delas contagiava seu corpo todo. Principalmente as pernas. Odiava quando as pernas tremiam, pois, para ele, tremor nas pernas era marca de fraqueza. Por sua cabeça nenhum pensamento ousava passar. Em segundos percebeu que quem seria executado naquele instante seria ele, não o rival.

-         Hahaha, riu-se o rapaz de capuz marrom, você não é tão perigoso como me falaram.

-         Ah, é? E quem te falou sobre mim? Tô tão famoso por aqui é?

-         E como! Tu tá dando mole, 'mermão'. Já devia ter ati...

            E, como planejado, mais uma vítima alvejada por suas balas.

            Saiu do morro, decretou mais um trabalho perfeito em todos os detalhes. De tão embevecido com tamanha competência, Marcos  Bala esquece de pensar. Mesmo. E, ao atravessar uma das mais movimentadas avenidas das redondezas, uma camionete, muito mais bonita que a sua, o encontra. Cai ainda consciente e seu raciocínio retorna:

            “Cadê minha sombra? Ninguém pode acabar com ela. Não ela.”

            Encontra sua tão amada sombra logo ali, ao lado de seu corpo molhado de sangue. Respira fundo, aliviado. E com um resto de forças dentro de si, apanha sua arma da sorte, sempre posta na cintura e lança uma bala contra a sombra. Manda um recado: “Eu mesmo dou conta dela. Assim, ninguém mais precisa temer Marcos Bala.”

            Os para-médicos chegam tarde. Mas Marcos ao menos morreu satisfeito. Havia terminado seu trabalho, afinal, não era de brincar com a morte dos outros e, de certo modo, feliz por ter sido finalizado por alguém que nunca vira na vida. 

            “A cama macia fica pra outra hora” - seguido do último suspiro



Escrito por Lorene Camargo às 13h47
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Andava...

...distraído como quem tem medo de nada. Sua vida, vivida. Seu terno, amassado. Suas respostas, curtas. Sua poesia, reta. E, a noite anterior:

- Me serve um uísque.

- E por que faria isso?

- Porque só eu faço você gemer daquele jeito.

- Ah, tá.

A "nulher" senta-se na mesinha de centro olhando-o: "Você não é mais o mesmo."

- Claro que não. Olha meu RG! - Ri ardilosamente e levanta-se em direção à garrafa.

- Não insulte seu uísque com gelo.

- É, você, em compensação, não mudou nada.

 

 E amam-se como da primeira vez.



Escrito por Lorene Camargo às 15h53
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Brisa baiana

Ela sempre dormia ouvindo música. Mesmo que fosse com um fone só. Para seu estranhamento, viu-se, de repente, numa sala a observar as fotografias acomodadas no balcão de madeira nobre. A jovem escritora desconfiava do ambiente, daquele ar ríspido mas seguro. Quando o viu adentrar pela porta que divide sala e sacada, taquicardia na certa. Suas mãos estavam geladas e aos pingos. Sua boca secou e um sabor amargo substituiu o da goma de morango.

"Sente-se, fique à vontade", disse ele, com toda simpatia estampada em sua face. Ela obedeceu e acomodou-se. Ao retornar seu olhar àquele ser tão afável, ele já pousava o violão sobre a perna direita, como o carinho de um pai. Os versos começaram a aumentar sua taquicardia. "Ah, se a juventude que esta brisa canta, ficasse aqui comigo mais um pouco..." A escritora tentava raciocinar enquanto ouvia e sorria. Concluiu que era um de seus convidados para aquela noite, afinal, parecia ser o aniversário do anfitrião. Porém, o incômodo não a dispensava, pois eram somente os dois naquela sala de tons fortes nas almofadas.

E o destino resolve brincar mais um pouco com esse coração tão frágil. A luz do ambiente apaga-se e só resta, como iluminação, o pôr do sol. Que, alaranjado parecia ter saltado das almofadas. Ele, porém, não intimidou-se. Soltou uma boa gargalhada e disse, à medida que trocava de sofá a fim de sentir aquela respiração sutilmente descompassada: "Não se assuste, tem acontecido muito disso por aqui. Parace que o governo resolveu brincar de esconde-escode no escuro". E riu-se mais uma vez. Seu violão, mais forte ainda, continuava e ele acompanhava: "Fica, ó brisa fica pois talvez quem sabe / O inesperado faça uma surpresa / E traga alguém que queira te escutar / E junto a mim queira ficar" . Por ter percebido a finalização da música, a taquicardia voltou a hospedar-se no miocárdio feminino.

Os olhares e sorrisos encontram-se. E permanecem, até que a luz retorna. Não sabiam ao certo quanto tempo ficaram naquela posição, sem piscar, como se estivssem a brincar, mas haviam gostado. E muito.

Ele levantou-se, ligou sem aparelho de som na mesma música que havia tocado e estendeu a mão à escritora: "Vem dançar." - Ele soltou, sem nenhuma trava na língua ou no peito. Ela, seguiu o conselho. Percebeu que seu coração acalmara finalmente. E os olhares sugaram-se novamente. À essa altura, estavam tão próximos a ponto de ela sentir a respiração do homem que há tanto tempo parecia por ela esperar. E afundou-se naquele mar que continha seus olhos, que possuíam uma mistura de cansaço e carinho. Ele correspondia a todos os sinais da bela escritora. "Que há comigo?" - Ele matutava com seu sotaque baiano, mesmo em pensamento.

Os lábios aproximaram-se, assim como os olhos que, desistindo de encarar-se, fecharam.

E, no momento exato em que ela podia sentir aquele corpo quente e confortável, 7h apontaram em seu despertador e acordaram-na. Acordou não aborrecida por ter sido acordada, mas feliz, porque havia vivido o melhor sonho até aquele dia.



Escrito por Lorene Camargo às 11h14
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Teste



Escrito por Lorene Camargo às 10h42
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